Prólogo

Achei que contar essa história não seria mais necessário. Por muito tempo, na verdade, tentei ignorar nossas origens, e a responsabilidade e o perigo de sermos quem somos no meio deste mundo estranho. Estávamos no início, mas não somos donos daqui. E cada notícia nos jornais me faz acreditar mais e mais que a nossa ascendência se perdeu, se dissipou, e com ela o poder de restaurar a Terra. Não sei como será o amanhã deste mundo. E isso me preocupa, meu filho, sobretudo agora que temos você para viver nele. Como me preocupa! Mas algo aconteceu ontem que me encheu de uma esperança (leve/ingênua/breve).

Estávamos eu e você no terraço brincando com o seu brinquedo favorito, o catavento colorido, como fizemos em muitos fins de tarde. Você já ficando em pé no chão, se apoiando em meus braços para não cair, enquanto esticava seus bracinhos rechonchudos e suas mãozinhas de bebê para alcançar as hélices do brinquedo que se moviam lentamente, estimuladas pela brisa. Quando chegava uma rajada de vento mais forte e o catavento rodava loucamente, você se alegrava tentando freneticamente alcança-lo. Ou assim eu interpretava. Nos dias anteriores, nunca havia reparado um padrão - talvez porque não houvesse ainda, de fato. Mas nesta tarde me deu um estalo depois de uma rotação que parecia interminável do brinquedo. Não estava ventando nos meus cabelos, não havia sinal de vento nas cortinas que costumavam soar como velas de barco batendo na porta do quarto. Nada de ventania em lugar algum do terraço. Mas o tempo que você passou encarando e se esticando para tocar o catavento, ele estava rodando. E rodando rápido!

Você não tem nem um ano ainda! Não seria muito cedo? Então, seguido ao estalo mental - a esta constatação do fenômeno ainda não compreendido totalmente pela minha mente cansada - passei alguns segundos, ou minutos - não saberia dizer - inerte, com olhar desfocado sobre sua cabecinha de poucos cabelos, tentando assimilar o que estava acontecendo. O catavento ainda rodando, ao que me estava parecendo, ao comando da sua mão. Ficamos ali até o sol se por por detrás das árvores que recobrem o morro da rua de cima. Carreguei você no colo e descemos a escada de madeira com degraus alternados, tipo Santos-Dumond, que papai ajudou a construir. Cada passo descendente era um risco para nós dois, os degraus pareciam turvados pela velocidade dos meus pensamentos, constatando o fenômeno recém observado e todas as implicações passadas e futuras que ele acarretaria.

Consegui descer o último degrau sem maiores incidentes. Sua vó, minha mãe, cantarolava na cozinha de móveis azuis enquanto preparava uma sopa de abóbora com batata doce para você. Ao passarmos pela porta falsa, que fingia ser um armário, vovó lhe viu, sorriu ao nosso encontro e você se jogou nos seus braços com um gritinho de satisfação. Sentei-me no sofá da sala e fiquei observando vocês brincando, sem conseguir ainda pronunciar uma palavra.

Achei que contar essa história não seria mais necessário. Mas será!

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