Capítulo 1

Acabei de te colocar para dormir dançando e cantando o forró que me fez encontrar seu pai há quase dezoito anos atrás. Você está tão grandão e lindo, meu bebê fofinho!

Enquanto passamos nossas tardes entre cochilos e brincadeiras, depois de mamãe voltar do trabalho, nossa nação vive uma guerra ideológica e moral, na política e na sociedade. Estamos a menos de uma semana da eleição mais estranha de nosso tempo, com o avanço iminente do neonazismo. Os confrontos naturais e históricos se repetem de tempos em tempos sem que os humanos se deem conta de que são sempre as mesmas forças a atuar. Elas só ganham nomes e vestimentas diferentes a cada geração e em cada parte do planeta.

Somos muito poucos hoje os que sabem nomear os males que permeiam as disputas de poder deste mundo. Aos nossos que resistiram, mimetizados aos olhos desatentos da atual sociedade, a tensão é constante. Alguns períodos de trégua e logo adiante uma nova batalha; batalhas que sequer são nossas. Nós somos a haste do equilíbrio original. Mas a balança trepida com o peso dos males extremo, e eles se espalham e respingam aleatoriamente. A nós, cabe nos proteger, e enquanto isso, trabalhar para tentar restabelecer um novo ponto de equilíbrio adiante.

A ignorância às vezes é uma benção, mas não é uma opção para nós. E depois do ocorrido no terraço, é prudente começar a lhe contar. É algo sobre a nossa ascendência, e sobre as histórias que não estão nos livros. Lendas fragmentadas, para alguns, cotidiano para os que tentam sobreviver neste mundo sem se perder de suas origens. Há uma frase que resume muito bem o porquê de vivermos no anonimato: é que a história é escrita pelos vencedores. Nós somos resistentes, meu filho, mas lutar implica em destruição, e isso não é do nosso afeito. Então, para conhecer nossa história, terei de ser eu mesma a lhe contar.

Alguns de nós perderam a esperança. Eu não posso perdê-la. Todo o meu desejo é que você possa ter anos de paz, meu bebê tão querido, que possa viver num recanto tranquilo, alegre e próspero. Mesmo enquanto as forças de desequilibram em embates irracionais e insustentáveis, é possível ser feliz e usufruir dos nossos dons e deste mundo de natureza tão bela e fantástica ao qual pertencemos.

É com coragem e prudência que temos sobrevivido há centenas de anos. E é com coragem e prudência que esperamos lhe preparar para a vida e proporcionar experiências tão ou mais fantásticas que as que temos vivido.

Deixa eu começar do início... Pelo menos do nosso início.

 ***

Eu argumentei em vão para ficar em casa na manhã daquela terça-feira. Me sentia exausta da constatação típica das segundas: o ensino médio não é exatamente um espaço para se aprender lições de civilidade. A escola me sufocava. Salas cinzas climatizadas artificialmente, brises de concreto barrando o sol e a vista das janelas, colegas nem sempre bem educados fazendo do bully uma prática diária. Desde muito cedo me incomodara estar longe da natureza. O desejo de liberdade fazia parte da minha essência; estar ao sol era uma necessidade do meu DNA.

Nossa história começou naquele dia. Foi uma tarde de primavera, como esta, há quase duas décadas atrás. Era terça-feira, dia de aula de música - meu sopro de ar fresco na semana. Eu estava fazendo um tour pelos instrumentos que a escola oferecia curso, pois considerava a possibilidade de fazer uma graduação em música. Já havia passado alguns meses em canto lírico, outros em bateria, para compreender melhor de percussão, e agora estava pousada no violão, que me parecia muito mais complexo e exigia um preparo físico nas mãos que me exigiu um pouco mais de tempo para adquirir independência suficiente para seguir como autodidata. Mas meu propósito principal na escola hoje, além da minha aula, era encontrar possíveis integrantes para uma banda de uma música só para tocar no festival de primavera da escola que acontecia todo novembro. Eu tinha 16 anos e já cantava em outra banda, uma de ensaio semanais e repertório elaborado. Mas eu não poderia propor a uma banda de rock tocar o forró. Não desmerecendo o estilo - pelo contrário, o forró de raiz é um dos estilos mais belos e significativos da nossa cultura, me faz vibrar dos pés ao coração o som da zabumba embalada pelo acordeon. É que simplesmente não combinaria com o repertório de rock. Então eu teria que achar outras pessoas para me ajudarem a realizar esta pequena aventura. Havia conseguido um voluntário, e este saiu a procura de outros estudantes para integrarem a banda. Soube que havíamos conseguido mais um voluntário, um guitarrista. Ótimo! Fui ao seu encontro na recepção da escola, como me instruíram. Cheguei pela porta de madeira e vidro

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