Capítulo Zero

Andei pensando que seria melhor começar com o mistério que envolveu a primeira vez que o vi. Vou tentar descrever.

Era noite, num sábado de setembro. Eu compartilhava o banco de trás do carro com Joane, minha amiga deste aqueles tempos, e conversávamos sobre o Festival de Primavera da escola de música, de onde acabávamos de sair. Mainha manobrava o carro no estacionamento e foi desconcentrada pelo riso de minha madrinha, que tentava me consolar com bom humor pela desafinada que dei ao tropeçar no fio do microfone, logo na primeira estrofe da primeira música que minha banda tocou. Ri junto, não por ter sido tão engraçado assim - foi discreto - mas para garantir a ela que estava tudo bem comigo. Eu levava minha banda a sério, e queria dar o melhor de mim nas apresentações. Mas o ambiente da festa era muito familiar e eu estava numa fase particularmente boa da minha adolescência, pouco disposta a me preocupar com qualquer coisa que já tivesse fugido do meu controle. A minha blusa azul, que eu mesma tinha feito e pintado, simbolizava bem o meu atual estado de espírito: florzinhas por toda parte e no meio um símbolo de paz e amor bem grande e colorido.

O carro ganhava velocidade na rua escura e nós suspirávamos daquele riso conjunto quando eu o avistei caminhando sozinho na calçada da orla. Só o cabelo dourado escuro bagunçado ao vento se destacava naquela visão. Sua roupa preta e o bag da guitarra quase não eram perceptíveis junto ao céu e o mar noturnos. O carro estava muito mais rápido do que minha capacidade de raciocínio, e quando eu pensei em sugerir que parássemos para oferecer uma carona, o rapaz já tinha ficado para trás. Ele teria medo, talvez, de entrar num carro estranho. Ainda que estivéssemos voltando da mesma festa e ele tivesse provavelmente nossa idade, acabei deixando passar o impulso natural de ajudar para um estado introspectivo de curiosidade sobre aquela cena. O burburinho continuou dentro do carro, e eu cuidei de manter meu semblante sorridente aparentando ainda estar ali com elas, mas na verdade meu pensamento voara naquele rapaz tão jovem voltando sozinho numa noite escura, numa cidade na qual não se podia nem se pode confiar. Ele havia se apresentado também. Minha amiga reparara nele mais cedo. Lembro que comentei algo sobre ele ser bonitinho demais para o meu gosto. Mais agora um mistério o rondara. Por que ele estava sozinho, de noite, numa cidade perigosa como a nossa? Onde estaria sua família? Que história haveria de ter aquele rapaz? Me diverti por mais alguns minutos desenhando várias teorias na minha cabeça. Mas numa sinaleira a pouco mais de um quilômetro de onde passamos por ele, meus pensamentos e a conversa do carro foram interrompidos pelo barulho de tiros. Com o sinal verde para os carros, atravessaram a rua correndo quatro homens, os dois últimos em fardas policiais, e os tiros se cruzavam na nossa frente. Mainha mãe foi freando o carro para evitar se aproximar da linha de fogo, e nos abaixamos o máximo que podíamos para dentro da capotaria do carro. O nosso era o único carro na rua num raio de uns quinhentos metros. Os tiros foram se afastando, mas permanecemos imóveis por mais alguns segundos. Respiramos e seguimos, sem mais risos e nenhuma conversa.

Meu pensamento não demorou a voltar, como um imã: e aquele rapaz?!

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